Novos Tempos | Devoção popular: folclore ou teologia viva?

As festas e romarias populares abrem a nova temporada nos finais de janeiro e inícios de fevereiro. Todos os anos regressam as mesmas críticas: “as romarias são folclore”, “as procissões são superstição”, “o povo mistura fé com espetáculo”. Esta leitura apressada revela mais preconceito do que compreensão e ignora algo decisivo: a devoção popular é um dos grandes tesouros espirituais do catolicismo.

O Diretório sobre a Piedade Popular e a Liturgia (2001) recorda que estas expressões não são adereços periféricos, mas “uma autêntica forma de inculturação da fé”. Nelas, o Evangelho ganhou rosto, canto, gesto, caminho e comunidade. Quando alguém acende uma vela, sobe até um santuário a pé ou acompanha uma procissão, não está a “fazer teatro religioso” – está a rezar com o corpo inteiro.

São Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi, advertia que a religiosidade popular contém uma “sede de Deus” e uma sabedoria espiritual que não pode ser desprezada. São João Paulo II retomou esta intuição na Redemptoris Missio, reconhecendo que estas práticas podem ser verdadeiro caminho de evangelização. Bento XVI, em diversas catequeses, via nelas um modo concreto de transmitir a fé de geração em geração. E o Papa Francisco, na Evangelii Gaudium, pedia que saibamos valorizar esta espiritualidade simples que sustenta a fé dos humildes e protege a Igreja do elitismo espiritual.

Contudo – e isto é decisivo – a Igreja também alerta para o equilíbrio. O mesmo Diretório insiste que a piedade popular não substitui a liturgia, mas deve conduzir a ela. Já o Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium, afirmou que a Eucaristia é “fonte e cume” da vida cristã. Não basta ser “católico de procissão” ou “crente de romaria”. A fé amadurece quando a caminhada ao santuário encontra o altar paroquial; quando o terço leva à Missa dominical; quando a promessa se traduz em vida sacramental.

Além disso, o verdadeiro teste da fé não é apenas o número de passos dados, mas a qualidade do amor vivido. Como lembra a Tradição da Igreja – de Santo Agostinho aos Papas contemporâneos – não há devoção autêntica sem conversão do coração e prática das obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome, visitar os doentes, acolher os peregrinos e os migrantes, consolar aflitos, perdoar ofensas, educar e acompanhar os mais frágeis. O culto que não gera caridade corre o risco de ser vazio.

O Papa Francisco insistia que a piedade popular é preciosa quando faz nascer discípulos missionários e comunidades vivas. Não podemos ser peregrinos isolados, mas cristãos inseridos na paróquia, participantes da Eucaristia, servidores dos pobres e construtores de fraternidade.

Quando vejo multidões caminhar de madrugada – pés cansados, rosários nas mãos, cânticos antigos nos lábios – percebo que ali há uma teologia vivida: confiança, penitência, gratidão, promessa e pertença. Mas, também os desejo ver, depois, sentados à mesa do Senhor e inclinados sobre as feridas do próximo.

Num mundo fluído e individualista, as romarias criam pertença; num tempo de ruído digital, a procissão pode ensinar silêncio; numa cultura que evita o sacrifício, o peregrino aceita o cansaço como oferta. Porém, a estrada só é plenamente cristã quando conduz à comunidade eucarística e ao serviço concreto dos outros.

Por isso, a pergunta não é se a devoção popular é folclore. A verdadeira pergunta é esta: saberemos integrar caminho, altar e caridade?

A Igreja será mais fiel quando unir piedade popular e liturgia, espiritualidade e vida comunitária, oração e misericórdia. Porque entre cânticos antigos e passos cansados pulsa uma fé viva – chamada a transformar o nosso mundo pela santidade do povo e pela misericórdia em ação.

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Sérgio Carvalho