A recente aprovação, no Parlamento português, da proibição de acesso às redes sociais a menores de 16 anos reabre um debate que não pode ser reduzido a slogans fáceis, nem a respostas meramente legislativas. Trata-se de uma questão cultural, educativa e moral que interpela famílias, escola, sociedade e também a própria Igreja. À luz da Doutrina Social da Igreja e do método preventivo de educar de Dom Bosco, é necessário perguntar: será suficiente proibir? Ou será mais urgente educar?

A Doutrina Social da Igreja recorda-nos que a pessoa humana é o centro de toda a vida social e que o bem comum exige a proteção dos mais frágeis, entre os quais se encontram as crianças e os adolescentes. Neste sentido, é compreensível a preocupação com os riscos associados às redes sociais: dependência, exposição precoce, cultura da comparação, perda de interioridade, banalização da violência ou da sexualidade. Proteger os menores é um dever moral da sociedade. Mas a mesma Doutrina sublinha também o princípio da subsidiariedade: aquilo que pode e deve ser feito pelas famílias não deve ser substituído pelo Estado.
E é aqui que a questão se torna mais exigente. Ao transferir para a lei aquilo que é, antes de mais, uma tarefa educativa, corre-se o risco de desresponsabilizar os pais e de iludir a complexidade do problema. Os pais são, por natureza e por vocação, os primeiros educadores dos filhos. Cabe-lhes introduzi-los no uso responsável da liberdade, incluindo no mundo digital. Nenhuma proibição geral pode substituir a presença, o diálogo, o exemplo e a autoridade serena que educa para o bem. Ou não fossem eles quem oferece os aparelhos que permitem o acesso às redes sociais.
Dom Bosco, grande pedagogo e mestre da juventude, não optou pela repressão como método. O seu sistema preventivo assenta em três pilares: a razão, a religião e a amabilidade. Em vez de controlar à distância, ele procurava estar próximo; em vez de punir, antecipava; em vez de desconfiar, acreditava na capacidade de crescimento dos jovens. Aplicado ao mundo digital, este método convida-nos a estar com os jovens nas redes, a conhecer as suas linguagens, a propor conteúdos de qualidade, a estabelecer regras claras, mas sobretudo a formar a consciência para que saibam escolher o bem mesmo quando ninguém está a ver.
Proibir pode ser necessário em determinadas circunstâncias, mas nunca será suficiente. Uma lei que afasta os menores das redes até aos 16 anos não os prepara automaticamente para um uso responsável a partir dessa idade. Se não houver educação prévia, a entrada tardia pode até ser mais desordenada e vulnerável.
Mais do que uma sociedade que proíbe, precisamos de uma comunidade que educa. Pais presentes, escolas atentas, comunidades cristãs que acompanham e propõem, e um Estado que apoia sem substituir. Educar para o digital é hoje parte integrante da missão de educar para a vida.
A verdadeira proteção dos jovens não se faz apenas com barreiras legais, mas com corações formados, consciências esclarecidas e relações de confiança. Educar antes de proibir não é permissividade; é responsabilidade. E essa começa, sempre, em casa.
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