A notícia recente sobre a beatificação de Fulton John Sheen não é apenas um acontecimento eclesial; é um sinal dos tempos. Num mundo saturado de palavras e carente de verdade, a Igreja propõe-nos como modelo um pastor cuja voz atravessou rádios, televisões e corações com uma clareza rara: firme sem ser áspera, profunda sem ser obscura, apaixonada sem ser fanática.
Sheen foi um arcebispo fora do comum. Intelectual brilhante, formado na tradição clássica e tomista, sabia dialogar com a modernidade sem se deixar capturar por ela. Não temia a cultura contemporânea; por seu lado, enfrentava-a com razão luminosa e caridade ardente. Na sua célebre série televisiva Life is Worth Living, mostrou que era possível falar de Deus a milhões de pessoas sem banalizar o Evangelho, nem diluir a doutrina. Não gritou. Não simplificou em excesso. Não fez marketing religioso. Falou com autoridade moral, humor fino e profundidade espiritual.
A sua vida revela três traços que hoje nos interpelam de modo particular.
Primeiro, a centralidade da Eucaristia. Sheen passava longas horas em adoração silenciosa. Dizia que todo o seu ministério brotava do encontro diário com Cristo sacramentado. Num tempo de ativismo e pressa, recorda-nos que a fecundidade apostólica nasce de joelhos dobrados. Sem contemplação, a ação torna-se ruído; sem adoração, a missão vira espetáculo.
Segundo, a coragem de anunciar a verdade com amor. Sheen não evitava temas difíceis: moral, família, pecado, liberdade, mas fazia-o sempre com uma ternura desarmante. Criticava ideias sem humilhar pessoas. Combatia erros sem demonizar adversários. Num clima cultural polarizado, o seu estilo mostra que é possível ser fiel e ao mesmo tempo dialogante; firme e simultaneamente misericordioso.
Terceiro, o uso criativo dos meios de comunicação. Muito antes das redes sociais, Sheen percebeu que o púlpito da igreja não bastava. Entrou nas casas das pessoas através da televisão, levando o Evangelho a crentes distantes, indiferentes e até hostis. Hoje, quando falamos de “Igreja em saída” e “continente digital”, vemos nele um precursor: não fugiu do mundo mediático – evangelizou-o.
A sua beatificação lança-nos perguntas incómodas e necessárias: Como crentes estamos a rezar o suficiente para sustentar a nossa palavra pública? Falamos de Cristo com beleza e inteligência? Temos a ousadia de usar todos os meios disponíveis para anunciar o Evangelho sem o trair?
Podemos aprender de Sheen que a santidade não é fuga da cultura, mas a sua transfiguração; que a fé não teme a razão; que a caridade não abdica da verdade; e que a evangelização mais eficaz nasce de uma vida interior profunda.
Num tempo de influencers efémeros, a Igreja propõe-nos um “influencer” eterno – não pela técnica, mas pela santidade; não pelo algoritmo, mas pela coerência; não pela aparência, mas pela presença de Deus.
Fulton Sheen lembra-nos que a vida é, de facto, digna de ser vivida quando é vivida a partir de Cristo. E que a Igreja precisa hoje menos de polémica e mais de testemunhas, homens e mulheres que, como ele, falem ao mundo com os joelhos calejados da oração e caminhem com o mundo de coração ardente.
Que a sua beatificação não seja apenas uma memória do passado, mas o impulso para uma nova primavera de evangelização.
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